
O alarme soou, baixo. A música era conhecida, agradável. Lembrava-lhe uma época feliz, um dos poucos lugares onde conseguira sorrir verdadeiramente, uma pessoa que a fizera rir de piadas bobas todas as vezes que ela chorara. Era realmente uma pena que ela não pudesse ter ele por perto sempre. Tudo parecia bem mais bonito ao lado dele.
Sentou-se na cama. Estendeu a mão para o despertador, desligando o alarme. Levantou-se, o coração disparando repentinamente.
Tentou não pensar no que estava prestes a fazer enquanto tomava banho e se vestia. As roupas comuns, normais para ela. Jeans e blusa preta. All star. Olhou-se no espelho, e sorriu. Poderia estar saindo para ir ao shopping agora. Mas a última coisa em que pensava eram compras.
Voltou ao quarto. Pegou um bloco de papel e uma caneta, deixados sobre a penteadeira na véspera. Levou o fundo da caneta aos lábios, pensando. Nunca fora boa em despedidas. Rabiscou as palavras, com pressa.
"Mãe... Não me procure. Talvez não goste do que pode encontrar. Eu te amo.
Pai... Tanto faz. Não vou dizer que a culpa é sua, você já sabe disso. Também não quero que se sinta culpado. Isso de nada me serviria. Eu te odeio. E, por algum motivo que eu não sei explicar... Eu ainda te amo."
Uma lágrima caiu sobre o papel, e ela percebeu, quase com surpresa, que estava chorando. Passou as costas das mãos nos olhos, impaciente. Precisava ser mais forte que isso se quisesse ir em frente.
Dobrou o bilhete e colocou-o sobre a cama. Alguém encontraria, quando fosse ao seu quarto.
Desceu as escadas o mais silenciosamente possível e caminhou até a porta, pegando sua bolsa no caminho.
Saiu de casa para o quintal escuro e estrelado. A noite estava limpa, bonita. Exatamente como ela planejara.
Abriu o portão e saiu. A rua estava deserta. Caminhou com pressa, o medo de ser descoberta apertando seu peito. Pegou-se correndo, as lágrimas caindo com rapidez por seu rosto.
Ela tinha um destino certo, e não se permitiu parar até avistar a imensa faixa de areia branca, encontrando-se ao longe com o mar, que refletia os milhões de pontos luminosos no céu.
Respirou fundo, caminhando devagar até bem perto do mar azul. Sentou-se na areia, abraçando os próprios joelhos, o olhar perdido na água. Doía pensar em tudo que estava deixando para trás. Mas precisava fazer isso, não aguentava mais...
Tateou as cegas na bolsa, a procura do celular. Por fim encontrou-o, perfeitamente útil para o que queria.
Mandaria uma mensagem. Apenas para as pessoas mais importantes. Ao contrário do bilhete para os pais, ela sabia exatamente o que dizer aos amigos. Porque era a única coisa a ser dita. Ou melhor, a ser lembrada.
"Eu amo vocês. Não imaginam o quanto."
Enviou. Sabia que entenderiam o adeus implícito na mensagem. Queria que existisse uma maneira de fazer com eles não sofressem.
Guardou o celular de volta a bolsa. Pegou a faca de prata. Seu coração acelerava, a respiração falhando. Sabia que devia fazer agora, antes que perdesse a coragem.
Desenhou um pequeno coração no pulso, com a lâmina da faca. Então, ela o partiu, o corte passando exatamente sobre a veia vital.
O sangue fluiu, tingindo de vermelho a areia clara. Ela sorriu, sentindo a morte se aproximar. Talvez agora as coisas melhorassem. Talvez seus pais parassem de brigar, quando ela não estivesse mais ali.
Deixou cair na areia, melancolicamente feliz. Fechou os olhos, para não abri-los mais.
Beijinhos ;*
P.s.: Recuperei as carteirinhas no sábado *-* Meu pai ligou para a diretora na sexta à noite, e ela me deu passe para entrar sem carteirinha na prova do dia seguinte. Quando cheguei à escola, me pediram a carteirinha. Cheguei exatamente na mesma hora que Fiuza. Aí a coordenadora estava na porta da escola, esperando, e me deixou entrar, e mandou que eu fosse na sala dela depois. Eu fui, e ela me entregou as carteirinhas. Entramos sem problemas hoje. Mas o mais legal foi que quando a coordenadora me disse pra passar na sala dela pra pegar as carteirinhas, Fiuza completou "e pra conversar também" e aí ela disse, na frente de todos os porteiros: "não. ela já está liberada". A cara dele foi liiinda! Nunca mais mexe com quem não deve ;)
11 comentários:
Que texto triste. Sorria que a vida é linda. Mesmo que você não se lembre você batalhou pela sua vida para nascer e a vida temos só uma, e temos que aproveitá-la. E não pense que você é a causadora da briga de seus pais, porque não é, você é uma garota incrível. Não se culpe. E nem pense em se matar...
Te amo! <3
Nossa, nada desses sentimentos tristes. Coisas ruins sempre ocorrem, mas não devem ser desculpas para termos atitudes não pensadas.
Melhoras pra você
te cuida viu
ate mais
Sorria Rafa!
Seja feliz!
Gostei, embora o motivo tenha parecido um pouco mesquinho.
De que adianta os pais pararem de brigar se, ao inves de chorar pelas tretas, chorarem pela filha perdida?
Mas enfim, gostei mesmo assim. parabéns!
*-*
Beeeijos.
vc já sabe o que eu penso sobre os seus textos emos.
Que triste, eu só não entendi o motivo.
Mto legal seu post.
Beijinhos ;**
Nossa =/ Belo bilhete!
Beeijos
Oi, Rafa! Achei esse texto muito triste e foi você que me disse que não era pra ficar triste, que era pra eu reeguer. Eu reergui, mas parece que você não está muito bem. Não fica assim, tudo vai se ajeitar, acredite.
Bejos com morangos.
Jenniffer.
olá, eu gostei do textinho mais achei um pouco triste a vida é bela sorriaaa...
que triste :\
Rafa, você não vai se matar! u.u
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